Íntegra do discurso do Sinjorgran hoje na Câmara de Vereadores

Proferido por Luis Carlos Luciano, tesoureiro do Sinjorgran e membro da diretoria da FENAJ

“Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Dourados, Idenor Machado

Senhores Vereadores

Colegas Jornalistas

Público presente aqui no plenário

 

Inicialmente gostaríamos de agradecer à Câmara Municipal de Dourados este espaço democrático tão importante para exercitarmos a cidadania, estimularmos a pluralidade de ideias e o debate contemporâneo.

Ontem, dia 7 de abril de 2014, comemoramos mais um Dia do Jornalista.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais na Região da Grande Dourados (Sinjorgran) tem jurisdição em 25 Municípios da região Sul de Mato Grosso do Sul.

O Sinjorgran é um dos quatro sindicatos regionais do País.

Os demais são de âmbito estadual.

Poderíamos aqui abrir o leque da retórica e dizer coisas bonitas, interpretar um cenário lúdico de maravilhas que muitos acreditam estarmos vivendo.

Dizer que jornalismo é romântico, que a atividade jornalística é sinônima de status, de belas e importantes companhias e que a crise moral, econômica, trabalhista e ética não nos afeta.

Não vamos tapar o sol com a peneira e nem sermos hipócritas.

Mas vamos separar as coisas: representamos a classe laboral, não os empregadores e seus pseudo-seguidores que tratam o jornalismo como um negócio meramente econômico e não se engajam na luta democrática e nos verdadeiros temas reformistas de interesse da coletividade menos favorecida pela sorte.

O jornalismo, antes de nada, como disse o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Celso Schröder, durante o 36º Congresso Nacional dos Jornalistas em Maceió, no qual estivemos presentes na semana passada, é uma ferramenta que equilibra a comunicação para o trabalhador, antes restrita à Igreja e elites.

O jornalismo está enraizado no processo democrático em defesa da população.

A democracia, por sua vez, tem uma relação íntima com o jornalismo.

Jornalista não é invenção do jornalismo, ele surge da necessidade social e pública e por isso o jornalismo deve ser um serviço social.

O jornalismo é fruto do nosso trabalho.

Abrir mão de um jornalismo de qualidade é abrir mão da democracia.

É retrocedermos à época de Chatô, a uma época de chantagens.

A concentração da mídia é uma afronta à democracia e à democratização da própria mídia.

Nós, jornalistas, exercemos a verdade testemunhada como bem definiu certa vez o jurista Afonso Arinos.  

Assim como tantas outras categorias deste país, o jornalista, salvo exceções, é um profissional sofrido, estressado, subtraído de sua convivência familiar por conta de jornadas injustas de trabalho.

É um trabalhador que sofre com a concentração do capital.

O excesso de informação, fenômeno que se verifica atualmente, não ilumina.

Não é possível fazer jornalismo sem o jornalista.

Temos visto jornalistas serem agredidos de todas as formas e até assassinados.

Têm sido crescentes as doenças da alma, os transtornos emocionais, o TOC, o pânico em nossa categoria.

Não há como ser feliz numa ilha de infelicidade.

Nós jornalistas vivemos atormentados pela água turva da precarização no seu ambiente de trabalho.

A precarização vive no nosso encalço embotando nossos sonhos, o espírito de luta pela igualdade e por um mundo melhor e mais justo.

O capitalismo selvagem suga-nos as forças como um exaustor forte e gigante e nos devolve a dúvida para que tenhamos a esperança enfraquecida e o futuro traduzido na imagem de uma nuvem cinza e indefinida.

Talvez nem a própria sociedade que consome e aprecia avidamente as notícias boas e ruins da crônica diária se dê conta de que enfraquecendo esse profissional não estão perdendo apenas os jornalistas, mas todos, indistintamente.

Jornalista abatido pelas agressões, por salários aviltantes, precárias condições de trabalhos e por ambientes patronais onde só os poderosos têm cadeira cativa, perde o interesse pela profissão e não raramente muda de ramo, entregando os pontos.

E quanto mais mão-de-obra despreparada, desqualificada e submissa mais se abre caminho para o pseudojornalismo ou para a completa falta de jornalismo, ambiente para oportunistas e chantagistas.

A nossa sociedade, infelizmente, está cheia deles.

Não representamos essas pessoas.

Aliás, a bem da verdade, queremos é distância delas e que Deus tenha piedade de suas almas.

Também repudiamos o jornalista que não respeita a ética e age de má fé, que ilude, engana e usurpa.

Que Deus também tenha piedade de sua alma.

Não somos, evidentemente, bastiões de moralidade porque há santos e violões não apenas em nossa categoria, mas em todas as outras, isso é notório.

Mas temos nossos princípios e levamos a sério esses princípios.

A diferença basicamente é essa.

O jornalista, por sua vez, precisa retomar a perspectiva de classe.

Deve se organizar como categoria.

Não há saídas individuais.

A desqualificação é uma armadilha do capital para enfraquecermos como trabalhadores organizados.

Enfrentamos pressões cotidianas do patrão, da fonte, do colega que segue integralmente a cartilha do patrão.

Nós, jornalistas, precisamos ter sempre em mente o nosso compromisso em busca da verdade.

Esse é o compromisso que temos com a sociedade.

Mas para isso precisamos ter autonomia que é sinônimo de liberdade.

Juntos, venceremos.

Divididos cairemos.

Vejam os senhores como se dá a banalização.

Quando o Supremo Tribunal Federal acabou com a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, a repercussão foi avassaladora no âmbito local e regional a ponto do único curso de jornalismo que existia em Dourados ter acabado por falta de estudantes.

Para que estudar, freqüentar faculdade, gastar horas e horas em estudos e pesquisas e se investir dinheiro para a formação se o diploma não é obrigatório?

Curioso e paradoxal é que na hora de pleitear uma vaga de trabalho para jornalista quem tem diploma leva vantagem…

Como se o exercício do jornalismo fosse uma atividade fácil, como escrever textos fosse um ato simples, como se a gramática se aprendesse num piscar de olhos, como se as técnicas do jornalismo fossem aprendidas num segundo piscar de olhos e como entender os mecanismos e as regras da sociedade e do Estado de Direito fosse um caminho suave…

Atualmente o Sinjorgran está fortemente engajado na epopéia para a criação do curso de Jornalismo na UFGD, um curso que, quando efetivado, poderá revolucionar as comunicações no âmbito local e regional no tocante à qualidade, no compromisso com a verdade, na produção e incorporação das novas plataformas midiáticas.

Difícil saber, por enquanto, o verdadeiro impacto disso na valorização trabalhista, mas acreditamos que ela deva ser bastante positiva.

O jornalismo e a tecnologia estão se fundindo.

Os desafios são cada vez maiores.

Há cada vez maior necessidade de profissionais qualificados no jornalismo.

Não há uma cura fácil para tantos problemas, mas a qualificação é indispensável, imprescindível.

Não há uma única solução.

Os leitores querem uma fonte na qual possam confiar.

O jornalismo permanece, senhores, uma arte imperfeita como todo ser humano.

Temos o desafio de incorporar os novos recursos tecnológicos sem perder de vista a qualidade de conteúdo.

Não somos contra a liberdade de mercado, mas temos fortes razões para acreditar que a melhor e menos manipulável mídia seja aquela subsidiada integralmente pelo recurso público, sem a intervenção da iniciativa privada.

A mídia que não seja apenas um negócio financeiro.

Mas esse é um assunto que ainda gera muita polêmica, mas essa discussão, mais cedo ou mais tarde terá que ser travada.

Estamos assistindo e nos adaptando às novas tecnologias que transformaram e continuam transformando os meios de comunicação. Há uma verdadeira revolução tecnológica a serviço da comunicação como um todo e um projeto de marco civil da internet aparentemente bom aprovado pela Câmara e que precisará passar pelo Senado.

Essa revolução tecnológica e a facilidade que as pessoas encontram para se expressar nas redes sociais parecem que criaram ao mesmo tempo a falsa impressão de que todos podem de alguma forma brincar de jornalismo.

Ledo engano.

Quanto maior o bombardeio de informações mais se precisa de jornalistas que se pautem pela qualidade e credibilidade na informação.

Saibam separar o joio do trigo.

Quem pensa que vai substituir o jornalista profissional por comunicadores genéricos mais baratos vai dar com os burros n´água.

Tramita na Câmara Federal, por força de mobilização da Federação Nacional dos Jornalistas e sindicatos de jornalistas de todo o País, o Projeto de Lei 2.960/2011 de autoria do deputado federal André Moura (PSC/SE) que institui o Piso Salarial Nacional dos Jornalistas Brasileiros em seis salários mínimos.

Quando de fato for aprovado esse projeto haverá um pouco mais de justiça na relação trabalhista para os jornalistas.

 A queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão em 2009 colaborou para a precarização do exercício profissional, dando a impressão de que o jornalista poderia ser qualquer um que o patrão decidisse colocar na redação, sem conhecimento específico ou responsabilidade junto à sociedade.

O jornalismo requer de quem o exerce, seja na região da Grande Dourados (MS) ou em qualquer lugar do Brasil, o registro profissional, o cumprimento do Código de Ética e da legislação específica, jornada de trabalho diferenciada de 30h, a negociação entre Sindicato e empresas para firmar os Acordos Coletivos de Trabalho, a utilização da tabela de valores de referência para os serviços avulsos (freelance) e a aplicação das novas diretrizes curriculares para estágio de estudantes de Jornalismo.

Tudo isso continua vigente enquanto outros projetos buscam tornar a formação superior em Jornalismo como requisito para exercício da profissão e a criar o Conselho Federal de Jornalismo.

Na jurisdição do Sinjorgran, neste ano, durante a semana do jornalista, estamos desenvolvendo a campanha que visa destacar o jornalista como profissional que merece valorização e respeito tanto da empresa quanto da sociedade.

Estamos aqui hoje fazendo uso desta Tribuna Livre como parte dessa campanha.

Lutamos em defesa do jornalismo ético, valorizado e de qualidade. Não há como assegurar o direito de todos à informação, à defesa das liberdades de expressão e de imprensa, dos direitos humanos e da democracia sem a devida valorização do jornalista enquanto profissional.

Não vamos abandonar a nossa luta e muito menos recuar.

Temos tido um papel importante no sentido de denunciar os desmandos na política e a corrupção em todos os níveis. Escândalos e escândalos que são mostrados seguidamente na imprensa por si só revelam a importância do nosso trabalho e das empresas de comunicação comprometidas com a verdade.

Sem esse mutirão incessante pela cidadania e resgate da honra e da honestidade com certeza a corrupção estaria ainda mais forte.

Encaramos, senhores vereadores, desafios de toda a ordem sejam no ambiente de trabalho como no exercício da atividade porque temos uma consciência que nos cobra, graças a Deus, a sonhar e não apenas sonhar, mas almejar uma sociedade melhor para todos nós.

Enfrentamos com destemor as crises de identidade e ajudamos a estabelecer a mediação e a credibilidade.

O Sinjorgran, portanto, assim como os nobres vereadores desta Casa de Leis, trabalha por algo muito maior que o próprio interesse.

Rogamos a Deus para que não gaguejemos diante da palavra verdadeira e para que continuemos tendo força para a dura batalha que parece estar longe de dar uma trégua.

Rogamos a Deus para que continue e abençoar a nossa categoria porque nós sempre buscaremos fazer a nossa parte.

 

Viva o jornalista!

Muito obrigado.”

 

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